Não é pergunta retórica. Faz a conta comigo.
Abre a sua geladeira na sua cabeça.
Tira tudo que estraga nas primeiras 24 horas sem luz. Tira o que precisa de fogão elétrico. Tira o que depende de água encanada para preparar.
O que sobrou é o seu prazo real.
Eu já fiz essa mesma pergunta para milhares de pessoas que me acompanham. A resposta mais comum é dois dias. A segunda mais comum é três.
Dois ou três dias. E quase todo mundo que responde isso acha que está preparado, porque tem um pacote de arroz de cinco quilos no armário.
Quase 95% das cidades gaúchas. Mais de 2 milhões e 300 mil pessoas afetadas. No auge, cerca de 79 mil pessoas ficaram desabrigadas. Foram 184 mortes confirmadas.
Defesa Civil do Rio Grande do Sul e registros de imprensaTodo o Brasil menos Roraima. Trinta e um por cento da carga elétrica do país caiu em dez minutos. Pelo menos 29 milhões de pessoas ficaram no escuro ao mesmo tempo.
ONS, Operador Nacional do Sistema ElétricoCento e vinte e oito mortos. Cidades inteiras ficaram ilhadas, sem estrada, sem energia e sem entrega de nada.
Registros oficiaisO socorro chegou. Mas não chegou no primeiro dia.
E não chegou depois porque a Defesa Civil seja incompetente. Chegou depois porque ela faz exatamente o que tem que fazer: prioriza quem está preso, quem está ferido, quem está soterrado.
Se a sua casa está de pé, se ninguém está sangrando, se vocês só estão sem luz, sem água e sem comida, você não é prioridade. E você não deveria ser mesmo.
Você é o que a gente chama de caso estável. E caso estável espera.
Eu cresci nisso. Trilha, acampamento, pescaria, caçada. Não como hobby de fim de semana, mas como o jeito que a minha família vivia. Eu montava mochila de emergência antes de saber que aquilo tinha nome.
Fui guarda-mirim. Depois servi no quartel por dois anos, passando por tropa de choque, escolta, canil e segurança presidencial.
E eu preciso ser honesto com você sobre o que isso significa e o que não significa. Não significa que eu sou herói de filme. Significa uma coisa muito mais simples e muito mais útil para você: eu fui treinado dentro de instituições que planejam o pior caso como rotina. Não por medo. Por protocolo.
Ninguém no quartel acorda achando que hoje o mundo acaba. Mas todo mundo sabe o que fazer se acabar. Essa diferença, entre viver com medo e viver com protocolo, é a coisa mais valiosa que eu aprendi na vida. E é ela que eu quero passar para a sua família.
Existe um número que serviço de emergência do mundo inteiro usa. Estados Unidos, Japão, Europa, e a Defesa Civil aqui no Brasil.
Setenta e duas horas.
É o tempo que se considera que uma família precisa ser capaz de se sustentar sozinha antes que o socorro estruturado consiga chegar até ela. Três dias.
Agora volta lá no começo. Quanto tempo você calculou que a sua casa aguenta?
E ficar em cima da linha significa que você depende de tudo dar certo. Depende do socorro chegar no prazo mínimo. Depende de ninguém da sua casa ter uma necessidade especial. Depende do vizinho ter o que emprestar, e o vizinho está na mesma situação que você.
Preparação não é comprar bunker. Preparação é sair de cima dessa linha.
E a boa notícia, aquela que ninguém te conta porque não dá para vender medo em cima dela, é que sair de cima dessa linha é barato e leva um fim de semana. Não é sobre gastar muito. É sobre saber a ordem certa das coisas.
Não é a história de uma pessoa específica. É o padrão. É a mesma sequência que se repete em toda ocorrência que eu acompanhei, muda só o endereço e o nome de quem estava lá.
Presta atenção nas horas. É onde está tudo.
A luz cai. E ninguém se preocupa. É até engraçado. A criança acha divertido, alguém acende a lanterna do celular, alguém faz piada no grupo do prédio. A gente já passou por isso mil vezes, volta em vinte minutos.
No grupo do prédio alguém manda que é geral, que a cidade toda está sem. É a primeira vez que dá um aperto pequeno no peito, e passa rápido. Todo mundo dorme achando que amanhã está resolvido.
Sem ventilador, sem ar, ou sem aquecedor, depende de onde você mora. O celular está em 40% e não tem como carregar. O roteador não funciona, então o WhatsApp só pega no dado móvel. O que quase ninguém sabe é que a antena da operadora também roda em bateria, e ela dura poucas horas.
A caixa d'água do prédio não encheu de madrugada, porque a bomba que sobe a água é elétrica. O que está saindo agora não é o começo do fornecimento. É o fim do estoque. E ninguém no prédio percebeu isso ainda.
Alguém abre para ver se ainda está gelado. Depois abre de novo. E cada vez que abre, acelera o que já estava acontecendo. O que estraga primeiro estraga junto: carne, leite, o que estava congelado e virou água. Uma parte grande do que a família tinha para comer some em uma tarde.
Tem fila. E tem um problema que ninguém tinha pensado: a maquininha não funciona. Cartão precisa de internet. Pix precisa de internet. O caixa eletrônico está morto. Só dinheiro em espécie.
Para aqui e responde para você mesmo: quanto você tem em dinheiro vivo dentro da sua casa agora?
E pela primeira vez você não tem resposta. Você percebe que está inventando uma para ela não ficar com medo, e que ela percebeu que você inventou.
Alguém da casa toma remédio contínuo. Sobram dois dias na cartela. A farmácia está aberta, mas o sistema está fora. Sem sistema não tem receita, não tem convênio, não tem venda de tarja. E aí você começa a fazer conta com comprimido, que é uma conta que ninguém deveria precisar fazer.
E junto com ele morre o número de todo mundo que você conhece. Você não decora o telefone do seu irmão. Ninguém decora mais. Se vocês se separarem agora, não existe forma combinada de se encontrar.
Não é mais fraca. Não sai. Descarga, louça, banho, escovar dente. Tudo isso vira decisão. E é aqui que a casa deixa de ser desconfortável e começa a ser insalubre.
Setenta e duas horas. Exatamente o número da regra.
Não tinha gerador, não tinha painel solar, não tinha nada do que você imagina. Tinha cinco coisas.
É isso que eu escrevi no guia.
Eu quero ser bem claro sobre o que ele é, porque tem muita coisa ruim sendo vendida nesse nicho.
Ele é ilustrado, com imagem em quase todas as páginas, e foi feito para ser consultado no momento em que você precisa. No escuro, com a família nervosa, sem internet.
Eu escrevi com um teste na cabeça: uma criança de dez anos tem que conseguir abrir e entender. Porque na hora que der problema, pode ser que o adulto da casa não esteja lá. E se não estiver, alguém precisa saber o que fazer.
Como transformar água suja em água que a sua família pode beber, usando o que já existe na sua casa hoje.
O que fazer nos primeiros dez minutos de um apagão, de uma enchente ou de um bloqueio de estrada. Esses dez minutos decidem os três dias seguintes.
Como montar uma para cada pessoa da casa, incluindo criança e idoso.
Do que realmente acontece em emergência: corte profundo, queimadura, torção, hipotermia. Não é curso de paramédico, é o que dá para fazer enquanto o socorro não chega.
Como se orientar e se comunicar quando o celular não funciona.
Tem gente que lê, entende tudo, fecha o arquivo e não faz nada. Não por preguiça. Por isso eu montei três materiais que tiram você do papel.
Uma folha. Você imprime, preenche à mão e cola atrás da porta do armário. Onde a família se encontra, quem busca a criança na escola, onde fica o registro e o disjuntor, que remédio cada um toma e a dose, telefone de três pessoas fora da sua cidade. Na hora do problema ninguém lembra de nada, papel na parede funciona quando a cabeça não funciona. Quinze minutos, zero real.
A lista exata do que comprar com os seus primeiros cento e cinquenta reais. Item por item, quantidade por quantidade, na ordem, com onde comprar mais barato. E a parte que ninguém fala: a lista do que NÃO comprar primeiro. Porque o erro mais caro nesse mundo não é comprar pouco, é comprar a coisa errada primeiro, gastar o orçamento inteiro e ficar sem o básico.
O que estraga rápido e o que não estraga. Como guardar cada tipo de alimento, como fazer rodízio para nada vencer, e como montar uma reserva que atravessa não três dias, mas meses. As 72 horas são o mínimo. Uma vez que você sai de cima da linha, você vai querer ir além, e esse material é onde começa.
Eu prefiro te dizer agora, e perder a venda, do que você comprar errado e se decepcionar depois.
Agora, se você quer sentar num sábado à tarde, preencher uma folha, fazer uma compra de cento e cinquenta reais e sair de cima da linha de uma vez, é para você que eu escrevi isso.
O que eu vou dizer é o seguinte.
Uma hora vai faltar luz na sua casa por mais tempo do que o normal. Isso não é previsão apocalíptica, é estatística. Já aconteceu com você em escala menor, e vai acontecer de novo.
Naquela terça-feira, sete e quarenta da noite, você vai estar num dos dois apartamentos.
E a coisa mais estranha de tudo isso é que quem decide em qual dos dois você vai estar não é você naquela noite.
É você agora.
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Ninguém nunca se preparou e se arrependeu. O arrependimento só existe do outro lado.